23 Março, 2013
01 Dezembro, 2012
crônicas de uma jovem mulher
Capítulo 1: O tarólogo
Sou curiosa. Na verdade, sou bem curiosa e poder vislumbrar uns pedaços do meu futuro sempre me pareceu uma ideia tentadora. Poder antecipar situações, me previnir de acontecimentos ou simplesmente dar oportunidade para que certas coisas aconteçam, dá aquela segurança na alma. Ou não.
Depois de um ano extremamente conturbado, eis que uma amiga me dá um conselho que ecoou na minha cabeça como um brado retumbante: "vai naquele tarólogo que eu te falei! ele é maravilhoso e acertou tudo da minha vida!!" A eloquência era tanta que em menos de dois minutos me vi convencida de que não poderia mais viver se não consultasse o tal tarólogo.
Peguei o nome e o telefone do cara, mas só marquei uma consulta semanas depois. Sempre gostei de astrologia, signos, símbolos, cartas, mas ler o horóscopo da Susan Miller (pelo aplicativo que eu paguei para baixar) e pagar vinte e quatro reais para saber o meu jogo de tarot do amor no Personare, tinham sido as atitudes mais drásticas que eu havia tomado na minha vida astrológica. (sim, sim, eu paguei o Personare! Me julguem.) Portanto achei que ir a um tarólogo seria mais uma experiência imperdível.
Cheguei sozinha ao endereço que o tarólogo me forneceu. Uma rua relativamente estranha, colada a uma comunidade dessas que eu ainda não sei o nome, aqui no Rio de Janeiro. Toquei a campainha e rapidamente subi ao apartamento do dito cujo. O tarólogo era uma figura esquisita. Cabelo preto, mais ou menos na altura dos ombros, escovado como uma bananeira e, com certeza, tinha sido submetido a algum alisamento ou chapinha. É o tipo de coisa que qualquer mulher perceberia.
Achei que um tarólogo teria aparência mística, com túnica branca, colares, e talvez uma pinta vermelha na testa, o que seria, na verdade, uma mistura de macumbeiro com um monge indiano. A nossa cabeça sempre produz uns estereótipos completamente idiotas quando simplesmente desconhece um assunto. O fato é que ele tinha cabelo de chapinha, usava regata de camioneiro que deixava aparentar seu buchinho saliente de cerveja, e um short surrado. E esse era o tarólogo.
Ele me recebeu numa salinha simples. Deixei minha bolsa sobre um aparador encostado à parede, de onde eu conseguia ouvir claramente o barulho da televisão ligada: era Carminha dando show em Avenida Brasil. Dentro da minha bolsa eu deixei o gravador do iPhone previamente ligado para registrar tudo o que ele ia dizer sobre o meu futuro. Não queria esquecer nenhum detalhe, mas depois da consulta a única coisa que eu tinha no celular era um capítulo da novela.
Foi uma experiência incrível ir a um tarólogo. Como eu sou uma tagarela, me concentrei para não falar nada da minha vida, testando a cada segundo os seus poderes de advinhação. Ele falou um monte de coisas que eu sentia, que eu vivia, que eu vivi. Falou de coisas tão específicas que passei a consulta inteira chorando. De alegria, eu acho. É como se, pela primeira vez na vida, eu não precisasse esconder nada do que sentia por que aquele tarólogo de chapinha sabia de tudo.
Saí da consulta e esqueci de perguntar tantas outras coisas que eu tinha dúvidas. Mesmo que fossem questionamentos patéticos como "porquê eu tenho medo de avião?" a impressão que me deu é que aquelas previsões me garatiam uma certa segurança mental, um fio condutor para a minha paz de espírito por que, finalmente, eu sabia o caminho que a vida deixou reservado para mim.
O problema de saber o futuro é que, ao contrário da tranquilidade que eu esperava, eu me deparei com a ansiedade da espera. Cada pessoa que cruza meu caminho pode ser a próxima a me fazer sofrer. Aquele rapaz que não ia dar certo, eu antecipei a derrota da situação. O próximo pode ser o homem da minha vida, mas as características têm que bater com a descrição.
O ônus de "saber o futuro" é essa angústia do que ainda não chegou. O bônus é que você tem tempo de olhar tudo com mais atenção, dar uma nova chance ao que você iria desistir e perceber certas nuances da vida que antes você não conseguia ver. É como se, de repente, eu fosse uma espectadora atenta da minha própria trama, desejando que chegue logo próximo capítulo, mas contemplando a vida enquanto o tempo não passa.
Só essa correção na minha miopia emocional já valeu a ida ao tarólogo.
27 Novembro, 2012
com urgência
A maioria das mulheres é que desempenha esse papel. O esforço de criar um relacionamento e fazer com que ele dê certo e permaneça existindo. A porcentagem de homens que batalham todos os dias para manter "a casa" é infinitamente menor do que a de mulheres dispostas a fazer dessa, sua missão de vida.
Investimos tempo, dedicação, horas de salão e calcinhas novas. Fingimos que não vemos uma porção de coisas, fazemos de conta que não sentimos falta daquelas baboseiras românticas, e que somos todas muito adultas, centradas e independentes. Colocamos de lado nossa carência para não incomodar o parceiro e raramente falamos abertamente dos planos que, secretamente, fazemos com eles. De casar, ter filhos e passar o resto da vida juntos. Jogamos para baixo do tapete todas as falhas do outro e junto vão também as ausências, a falta de palavras do pé do ouvido. Colocamos na balança o dobro do peso para as poucas alegrias, a metade da medida para as lágrimas que choramos.
Aplicamos uma visão "holística" do relacionamento que poderia facilmente ser confundida com um glaucoma. E com muita esperança sempre construimos coisas que, de fato, não existem. Somos criadas com a urgência de ser feliz para sempre. E isso é muito natural (e urgente) se levarmos em consideração que a natureza nos dotou de pouco tempo de procriação. É um "movimento" psicológico natural para a maioria das mulheres. Com essa urgência uterina construimos sonhos, amores profundos, expectativas. Com essa urgência queremos o maior amor do mundo, planejamos a casa e a família. Com essa urgência doamos tudo o que temos pensando que o outro anda no mesmo passo.
Com essa urgência o tempo passa e não sobra nada entre nós.
A parte mais difícil de desapegar não é do outro. É do que nós, mulheres, construimos sozinhas durante um relacionamento. Poucos homens compreendem quando uma mulher diz que "perdeu tempo" com um cara. É que nosso tempo tem outro valor, outro peso. É um investimento que nós fazemos. É o mesmo que colocar dinheiro na poupança e, em vez de render juros, você perder uma boa parte para o imposto de renda. A matemática é essa. Da perda. Se ao menos saíssemos de um relacionamento empatados...mas em geral perdemos o outro e tudo o que projetamos nele. E não é fácil passar anos e anos alimentando um sonho e depois ter que acordar.
E a coisa pode ficar muito pior se pensarmos que em breve outra pessoa terá a chance de fazer aquele mesmo investimento, no seu lugar. E que talvez essa pessoa consiga, de fato, um retorno e você fique apenas assistindo, de camarote, seu castelinho de cartas cair.
Ninguém tem como controlar o que o outro sente ou deixa de sentir, muito menos conseguimos dizer para nós mesmas "pare!". Também não controlamos a hora em que devemos abandonar o barco. Até que outro "investimento" sirva-nos de fôlego para recomeçar, a gente sempre se sente esvaziada, como se o coração fosse um par de bolsos furados, esperando alguém remendar.
22 Novembro, 2012
sou de momentos
Sou de momentos.
Num eu amo
no outro odeio
geralmente amo
sem freio.
Num eu pinto
no outro eu leio
num eu construo
no outro rasgo
sem receio.
Num eu excedo
no outro eu contenho
e contida em mim
me divido ao meio.
Num eu calo
meu coração cheio
no outro eu grito
meu anseio.
em todos eu escrevo
o que vem no peito.
porto seguro
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| A idade da Esperança: obra do equatoriano Oswaldo Guayasamín |
Porto seguro: Um local que os navios atracam em segurança. Amparo. Confiança. Alguém que está sempre ali, transmitindo força para lutar.
Existem poucas pessoas assim. Mas existem. Pessoas cujo nome acompanha essa denominação de "porto seguro". Pessoas que são como rochas inabaláveis que aguentam, intactas, o bater furioso das nossas ondas. Eu vou e volto. Fortaleço e esmoreço. Renovo e canso. Sorrio e choro, mas meu barco tem sempre um porto para voltar. Posso contar nos dedos as pessoas que são assim, que perto ou longe me dão esse abraço de esperança. Que aliviam o peito e acalmam o coração com meia dúzia de palavras. Que me inundam de um conforto que eu não posso explicar. Que carregam meu coração nas mãos e colocam pra ninar. Que me fazem dormir sorrindo e transformam meu medo em confiança para lutar.
Essas pessoas são raras, mas são certas. É quase dificil identificar, mas quando menos esperamos, estamos acomodados, dentro dos seus braços, protegidos e salvos. Amam minhas loucuras e meus defeitos, compreendem meus desesperos e, se for preciso, gritam junto comigo. Minha maré sobe e desce. Meu convés alaga e esvazia. Minha vela debate, enfurecida, ou navega suave, na brisa. Meu leme apruma ou desgoverna. A proa sacode, alerta, mas meu navio sem destino, tem um lugar pra voltar.
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